/ Miguel Rodrigues




Miguel Rodrigues trabalha as relações do hábito e da memória com as conceções lineares do tempo e a sua representação na paisagem. Partindo de um levantamento fotográfico e da recolha de objetos de um terreno adjacente à Estrada Nacional 10 em Alhandra, atualmente em obras de requalificação paisagística de um terreno, constrói, através da fotografia, do texto e da relação destes com os objetos encontrados, um corpo de trabalho em que contrasta as noções de produção de presença (Gumbrecht, 2012) e de duração (Bergson, 1889) com o distanciamento entre observador e espaço implícito na formulação clássica da paisagem como construção em perspetiva.













Casa d’Avenida

Para este primeiro trabalho, houve um foco na questão Como trabalhar a memória do hábito de percorrer diariamente uma estrada?
Após uma primeira recolha de imagens no espaço, tornou-se óbvio que a estrada continuava ali. Fragmentada e desligada da sua função por causa dessa mesma fragmentação, as evidências da sua presença naquele espaço antes das obras iam surgindo como elementos arqueológicos, escultóricos, e iam permitindo um questionamento, não exatamente do seu uso, porque estes fragmentos já não tinham caminho, mas do que esse uso deixava para trás.

O trabalho feito para a exposição consistiu em trazer de volta uma ideia de percurso e de repetição. Partindo do princípio de que os fragmentos da estrada não davam acesso a nada que não a si mesmos, o percurso, a repetição do percurso focava-se em trazer o público para a consciência de um efeito da estrada, não como acesso a outro lugar, mas como repetição da mesma forma; da mesma posição do corpo e do espírito; da mesma relação com o espaço.





                





                        
Tirando partido da configuração do espaço da Casa d’Avenida, da possibilidade de circulação que este permite ao público, esta ideia de repetição foi explorada pelo uso repetido das mesmas imagens, em escalas diferentes e em relações diferentes umas

com as outras, de modo a criar, não um esquecimento do facto de que se repetem os mesmos percursos sistematicamente, mas uma dificuldade em recriar uma experiência com contornos claros em relação ao onde e ao quando da nossa vivência dela.









Miguel Rodrigues - Invenção da Amnésia